• Mayara Labs;Miriam Furlan

Green book: o guia (2018)



ou Sobre como nos comportamos diante

do desconhecido.

Tony Lip (Vigo Mortensen) é o estereótipo do americano fruto de uma família italiana imigrante: trabalha como segurança em um clube em Nova York (ou, como ele prefere dizer, “relações públicas”), bruto, de “pavio curto”, que resolve o que precisa ser resolvido, independente da forma ou das consequências. Lip é um ótimo exemplo de como nossa visão de mundo é moldada, principalmente, por nossa família. A casa onde o segurança mora com a mulher e os filhos precisa de alguns reparos, mas o fato da empresa contratada enviar trabalhadores negros mobiliza toda a família:

“O que estão fazendo aqui?”

“Viemos fazer companhia para Dolores”

“Não fique dormindo enquanto minha filha está aqui sozinha com esses ‘sacos de carvão’”

“Eu não sabia quem iam mandar! Não sabia que eram os berinjelas!”

Ao contrário do restante da família, Dolores é amável com os trabalhadores, aparentando não ter a mesma cultura preconceituosa que sua família de origem (também italiana) e de seu marido: Lip joga fora os copos onde Dolores serviu suco para os trabalhadores. Ela os pega de volta do lixo.

Do outro lado da trama, temos Dr Donald Shirley (Mahershala Ali): negro, homossexual, pianista reconhecido mundialmente, rico, educado, refinado, mas um pouco arrogante, talvez uma forma de defesa por ter sofrido preconceito por toda a vida.

O encontro dos dois personagens se dá quando o clube onde Tony trabalha ficará fechado por dois meses para reforma e o mesmo, desempregado, aceita a proposta do “Doutor” para ser seu motorista particular em uma turnê pelos estados do sul dos Estados Unidos (locais onde, historicamente, o preconceito contra negros é mais acentuado). O primeiro contato entre o músico e o segurança é permeado por olhares de desaprovação dos dois lados:

“Não estou contratando apenas um motorista. Seu nome foi indicado várias vezes por sua capacidade inata de lidar com problemas.”

“Precisa de alguém para de A até B? Para não haver problemas no caminho? E, acredite em mim, você, no Sul, terá problemas.”

Durante toda a viagem, onde o motorista seguiu as recomendações do Green book (lista de locais que negros podem frequentar nos estados por onde a turnê passará), a relação de Dr Shirley e Tony, que inicialmente tratava-se apenas de um acordo de trabalho e onde era explícita a aversão que um tinha pelo outro, vai transformando-se em uma amizade. Tony, ao observar os comportamentos de todos onde o pianista se apresentava, foi re-significando o preconceito “herdado” da família, resultado de uma visão distorcida de todos que não fossem de sua etnia. O motorista, ao conviver com Donald durante aquelas oito semanas, conseguiu transpor as diferenças entre ambos e desenvolver empatia pelo chefe, acolhendo-o e defendendo-o sempre que era agredido (física e/ou verbalmente).

Quanto ao Dr, que via o motorista como algo abominável, alguém sem educação, glutão e violento, aos poucos vai se “deixando levar” pela visão simples da vida que Tony tem, onde se come frango com as mãos e se joga os ossos pela janela do carro. Claro, sem a convivência “forçada”, provavelmente nenhum dos dois teria a chance de mudar seus conceitos distorcidos, mas o importante é que durante a viagem, ambos vão “amolecendo” e passam a enxergar um ao outro de forma bem diferente. Eles perdem o medo do desconhecido ao entrar em contato com ele.

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