• Mayara Labs;Miriam Furlan

Nasce uma estrela (2018) / Shallow (2018)



ou Sobre as consequências de negarmos nossas dores.

Quarto remake do filme de mesmo nome, Nasce uma estrela nos apresenta a história de duas pessoas “quebradas” que se encontram por acaso e que tentam, cada um a sua maneira, se ajudar.

De um lado temos Jackson Maine (Bradley Cooper), cantor famoso, com uma carreira sólida, que arrasta multidões a seus shows, mas que tem no vício do álcool sua válvula de escape como forma de mascarar seu sofrimento. Maine nasceu com um problema auditivo, o que não o impediu de tornar-se cantor. A mãe de Jack morreu em seu parto e seu pai, quando ele tinha 13 anos.

“Acho que meu irmão diria (...) que me criou, mas, sei lá. Não sei quem foi que criou quem.”

Bobby, meio-irmão mais velho de Jack, também é seu empresário e fica explícito, desde o início da produção, que os dois têm graves problemas de relacionamento, chegando a se agredir fisicamente. Não fica claro, mas, talvez, após a morte do pai, Bobby tenha abandonado a busca pela fama como cantor para cuidar do irmão mais novo, gerando uma grande mágoa em relação ao pai (que ele escancaradamente, odeia). Os não-ditos entre os dois são inúmeros e essa dinâmica doente se agrava quando Jack fica sabendo que Bobby vendeu a fazenda que ganhou do irmão e onde o pai de ambos estava enterrado:

“Ele foi levado em uma enxurrada, o túmulo não está mais lá. Eu disse para você, mas você estava bêbado demais. Estava chapado demais, cavando para si mesmo o fim de sua carreira. Dane-se se chorou por aquele bosta que você idolatra sem nenhum motivo. Só o que o nosso pai fez por você foi ser seu companheiro de bar. Estariam lá se ele ainda estivesse vivo e você sabe disso.”.

“É uma boa desculpa, cuidar do irmão menor quando na verdade você não era bom.”

“Se eu não era bom, por que você roubou a minha voz?”

“Você não tinha nada para dizer. Era orgulhoso demais para cantar algo que eu tivesse composto.”

Aqui vemos as diferentes visões que os irmãos têm do pai: enquanto o mais velho o vê com um bêbado, que morreu e o deixou responsável pelo irmão mais novo (também alcoólatra na época), Jack idolatra o pai e, como forma de negar que também se tornou alguém destrutivo, acredita que ele tinha mais talento que todos que já conheceu, parecendo se esquecer do seu lado tóxico. Afinal, como assumir conscientemente que ele se tornou uma “versão” de seu pai? Como aceitar que ele se transformou em alguém que faz mal a todos ao seu redor? Machucado, Jack “escolhe” curar sozinho seus traumas, amenizando suas dores com o vício, sem procurar ajuda efetiva. Torna-se alguém triste, mal cuidado, que está sempre suado e aparentando cansaço, que usa roupas desajeitadas, parecendo não se importar com si próprio de uma forma que ultrapassa o estereótipo de “músico largadão”, aproximando-o de um estado depressivo permanente.

Do outro lado, temos Ally: uma jovem extremamente talentosa, mas que não acredita em seu potencial; compõe, mas não se sente confortável em cantar as próprias músicas, pois, segundo a “indústria musical”, ela não possui a beleza necessária para ser uma estrela:

“Meu nariz não me deu sorte. Se não fosse por ele, poderia ter emplacado uma música. (...) ouvem meu disco e dizem ‘sua voz é ótima, mas sua aparência, nem tanto’.”

A jovem mora com o pai em uma casa onde também funciona a sede da empresa de aluguel de limousines do mesmo. Diz ao pai que é feliz vivendo ali, mas claramente o lugar a sobrecarrega. Além disso, o pai parece tentar ajudar a filha da pior forma possível dizendo que ela tem

“(...) uma voz que vem do paraíso, mas sabem de uma coisa? Nem sempre as melhores chegam lá. Eu conheci uns caras que botavam Frank Sinatra no chinelo. Mas Frank subia no palco com seus olhos azuis, o seu terno lustroso e sapatos de verniz e se tornava Frank Sinatra. E todos os outros caras, que eram realmente bons, que tinham talento, continuavam sendo Zés-ninguém.”

Esse discurso apenas reforçava o pensamento distorcido de Ally quanto a não fazer sucesso devido a sua aparência: assim como “os outros caras”, ela tinha talento, mas não tinha “olhos azuis”. Ally, para o pai (e provavelmente também para ela), era uma “Zé-ninguém”.

Além de trabalhar em um restaurante onde é maltratada pelo chefe, à noite a jovem é garçonete em um clube onde Drags se apresentam e, vez ou outra, ela também canta. É em uma noite dessas que a vida de Jack e Ally se cruzam e o cantor se encanta com sua apresentação. Durante uma conversa, o cantor descobre que Ally compõe, mas que tem vergonha de cantar e não acredita em seu talento:

“Talento existe em toda parte. Todo mundo tem talento. (...) Mas ter alguma coisa a dizer, de um jeito que as pessoas ouçam, é outra coisa. E se você não tentar fazer isso, você nunca vai saber. Essa é a verdade. Estamos aqui para dizer algo que as pessoas queiram ouvir.”

Durante essa noite, Ally vai se incomodando cada vez mais com a forma como os fãs de Jack se comportam em relação a ele:

“Como você lida com isso o tempo todo? As pessoas falando como se você não fosse real, tirando fotos. Como você consegue isso? Ninguém lhe pergunta sobre você, não é?”

Ally foi, provavelmente, uma das poucas pessoas que enxergaram Maine como um ser humano e não apenas como uma estrela da música, o que, pela reação do cantor, lhe causou estranhamento. É, durante essa conversa, que Ally compõe a segunda parte da música Shallow que, até aquele momento, era apenas algo que ela poderia usar como um refrão:

Diga-me uma coisa, garoto

Você não está cansado de tentar preencher esse vazio?

Ou você precisa de mais?

Não é difícil manter toda essa energia?

Eu estou caindo

Até nos bons momentos

Eu fico esperando por uma mudança

E nos maus momentos, eu sinto medo de mim

Jack, então, se reconhece na música e se sente “visto” por Ally. A jovem, embora relutante no início, decide ir a um show de Maine a convite do mesmo. Lá, durante a apresentação, ele canta a música escrita por ela, agora com a primeira parte e um arranjo feitos por ele, questionando se ela gosta de sua vida ou se também está procurando por algo, mostrando que ele também “viu” Ally:

Diga-me uma coisa, garota

Você está feliz neste mundo moderno?

Ou você precisa de mais?

Há algo mais que você esteja buscando?

Eu estou caindo

Até nos bons momentos eu fico esperando uma mudança

E nos maus momentos, eu tenho medo de mim

“Respondendo” a pergunta de Jack na música, Ally, em um rompante de coragem, adentra o palco “buscando por algo mais” (provavelmente pensando “O que eu estou fazendo? Agora não tem volta...”) e forma um dueto com Maine, cantando o refrão que já ela havia composto:

Eu estou no trecho mais fundo

Observe enquanto mergulho

Eu nunca tocarei o chão

Atravesse a superfície

Até onde não possam nos ferir

Estamos longe do raso agora

A partir daí eles iniciam um relacionamento intenso, onde eles “atravessaram a superfície”, abandonando os medos – uma vez que ambos “viam” um ao outro, sabiam de suas limitações, mas mesmo assim, decidiram se tornar parceiros dentro e fora da música - e deixando de fora tudo que os fazia mal, ficando “longe do raso”, onde ninguém poderia ferí-los, onde ninguém os “via” e eram infelizes, mantendo-se no trecho mais profundo do amor, onde um protegeria o outro.

Os problemas do casal se iniciam quando Ally recebe a proposta para gravar o próprio disco e Jack, cada vez mais dominado por sua adicção, parece sentir-se ameaçado e na iminência de perder Ally: ele começa a “voltar à superfície”. E eles vão se afastando cada vez mais conforme Ally passa a dedicar-se mais à própria carreira e não pode mais acompanha-lo em suas apresentações. Quanto menos ele tem a presença de Ally em sua vida, mais ele volta ao antigo Jack, que preenchia o vazio com vícios.

A partir daí a relação dos dois adquire em uma dinâmica tóxica, onde Maine tem altos e baixos de acordo com o sucesso de Ally. Quando atinge o ápice do vício, Jack decide pedi-la em casamento: “talvez ela (Ally) seja uma saída”, diz um amigo de Jack. Mas o cantor continua incomodado com o sucesso e a ausência da esposa e irrita-se por ela estar deixando de ser quem era, transformando-se em alguém que “não tem o que dizer” ao público, uma vez que ela passa a aceitar as exigências de seu empresário. Maine tem comportamentos que são um misto de inveja do sucesso de Ally, medo de perdê-la e frustração por estar perdendo seu prestígio como cantor, tudo isso, anestesiado pelo uso de drogas e álcool. Já ela, vai ganhando “brilho” ao longo da trama, acreditando em seu potencial como artista, deixando de lado seu “nariz que só deu azar”.

Com Ally sendo indicada a prêmios, o cantor perde o controle outra vez e estraga a entrega do prêmio que ela termina ganhando. Após o vexame, Jack assume sua condição de dependente químico e interna-se em uma clínica de reabilitação. É durante seu tratamento que ele confessa que, enquanto o irmão estava na estrada tentado ficar famoso cantando, havia tentado se suicidar enforcando-se pouco antes da morte do pai e que o mesmo não percebeu porque estava bêbado.

Ally e Jack, então, se isolam em uma casa em meio a uma floresta, mas, mais uma vez, quando Jack parece se recuperar, ele desaba novamente depois que o empresário de Ally vai até a casa onde eles estão e diz para Jack que

“Enquanto você esteve fora, estivemos aqui (...) tentando concertar o estrago que você fez. Você quase destruiu a carreira dela, você entende? Nós dois sabemos que é só questão de tempo até você passar (...) para a bebida alcoólica. E quando isso acontecer, não quero que ela esteja perto de você.”.

Ally, então, mente dizendo que o estúdio decidiu cancelar a turnê pela Europa com a intenção de cuidar do marido. Jack, visivelmente transtornado pela fala do empresário da esposa, promete que a encontrará no local do seu último show, mas não aparece. Jack toma vários comprimidos e depois se enforca.

Desde o início da produção podemos perceber que o vício de Jack é negado pelo casal: ele agindo como se tudo estivesse normal, como se o consumo de drogas não fosse algo grave e ela, sempre tentando contornar os constrangimentos causados pelos comportamentos de Jack quando o mesmo estava embriagado. Ally confunde amor e ajuda, parecendo acreditar que pode “concertá-lo” sozinha, o que foi reforçando a crença do marido de que ele venceria o vício sem ajuda profissional. Infelizmente, Jack não tinha condições emocionais para manter-se longe da “superfície”, pois era o único lugar onde ele conseguia sobreviver. Lá ele não precisaria lidar com seu passado. Lá ele estaria “protegido de si mesmo”. Na “superfície” ele não precisaria ser “real”.

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