• Mayara Labs;Miriam Furlan

“O medo leva à raiva, a raiva leva ao ódio e o ódio leva ao sofrimento”



(Yoda, Star Wars, Episódio I: a ameaça fantasma)

Pode ser que você nunca tenha ouvido falar de Star Wars (espero que tenha...), mas provavelmente já deve ter visto estampado em algum lugar a figura de Darth Vader, aquele personagem que emite um som estranho como se tivesse “dificuldade para respirar”. Mesmo que você não o conheça

(e continuo na esperança de que esse não seja o seu caso), será capaz de compreender a análise que farei a partir da transformação de Anakin Skywalker em Lorde Vader. Mas, para tanto, será necessário que eu dê vários spoilers sobre a saga.

Quando Padmé Amidala, rainha de Naboo, precisa fugir de seu planeta natal devido às crises dos últimos anos da República Galáctica, termina por aterrissar em Tatooine – um planeta deserto e fora do alcance da Federação, que perseguia a rainha – para reabastecimento e reparos de sua nave. Lá, escoltada por um mestre Jedi (Qui-Gon Jinn) e seu Padawan (Obi-Wan Kenobi), conhece o escravo Anakin, uma criança muito inteligente, meiga e que, segundo sua mãe, não conhecia a ganância, ajudando todos sem esperar retorno por isso. Nesse encontro, Anakin se encanta por Padmé, chegando a compará-la a um anjo, “as criaturas mais lindas do universo”, segundo o menino.

Além de encontrar seu primeiro e único amor, Anakin desperta o interesse de Qui-Gon, que acredita que o menino seria O Escolhido que traria o equilíbrio à Força.

"A Força é o que dá poder ao Jedi. É um campo de energia criado por todos os seres vivos, ela nos envolve e penetra. É o que mantém a galáxia unida." (Obi-Wan Kenobi)

Ou seja, Anakin teria um grande papel na guerra que estava por começar e, assim, contrariando o conselho jedi, Qui-Gon decide treinar o garoto, tornando-o seu Padawan. Ao deixar Tatooine, o menino promete a sua mãe que voltará para libertá-la, precisando, pela primeira vez, lidar com uma grande separação.

Yoda percebe algo de errado no menino e passa a temer que seu treinamento possa levá-lo para o lado sombrio da Força:

“Sinto falta da minha mãe”

“Você tem medo de perdê-la”

“O que tem isso a ver?”

“Tudo, o medo é o caminho para o lado sombrio. O medo leva à raiva e a raiva leva ao ódio. O ódio leva ao sofrimento. O medo da perda é o caminho para o lado sombrio. Treinar a deixar ir tudo que você tem medo de perder, você deve”

Durante todo seu treinamento, Anakin mostra-se questionador, rebelde e com um grande desejo por conhecimento, acreditando, inclusive, que Obi-Wan não está mostrando tudo o que seria possível realizar a partir da Força. O Padawan parece sempre querer mais, como se precisasse provar a si mesmo e ao outros que era o melhor em tudo, que seria suficiente.

Dez anos depois de iniciado seu treinamento, com Obi-Wan como mestre (uma vez que Qui-Gon foi morto por Darth Maul durante um combate, a segunda perda do jovem na saga, uma vez que o jedi tornou-se uma figura muito importante para o padawan) Anakin reencontra Padmé, agora senadora de Naboo. Os dois terminam se envolvendo romanticamente e a senadora fica grávida. Nesse contexto, ele decide voltar à Tatooine e libertar sua mãe, mas lá descobre que ela foi sequestrada por uma tribo do Povo da Areia. Sob o domínio do ódio, Anakin mata toda a tribo (incluindo crianças, mulheres e idosos) e resgata sua mãe que, devido a vários ferimentos, não sobrevive. É nesse momento que vemos o início da transformação de Anakin em Vader. Devido ao medo de sofrer com mais alguma perda e à crença de que não foi capaz de cumprir a promessa que fez à mãe (ou seja, que foi insuficiente), o Padawan afirma à esposa que será “o jedi mais poderoso que já existiu para aprender a impedir a morte”.

A partir da Força, Anakin consegue prever acontecimentos e durante um sonho, vê Padmé chamando por ajuda durante o parto. Com isso, tentando impedir que a senadora sofra, acaba aproximando-se de Palpatine (Imperador Galáctico e um Lorde Sith – seguidor do lado negro da Força), que passa a manipulá-lo prometendo que pode ensiná-lo a burlar a morte e salvar Padmé.

Ao contrário do que ensinou Yoda, Anakin deixou que o apego e medo da perda da esposa tomassem conta de si e passou a cometer todo tipo de atrocidade ordenada por seu novo mestre.

Cego pelo ódio e pelo medo, mais uma vez Anakin não conseguiu cumprir sua promessa, chegando a agredir a esposa em uma busca desesperada por mais poder (poder esse que ele julgava ser capaz de salvá-la). Padmé morre no parto e, dominado pelo lado negro da Força, Anakin, agora Lorde Vader, deixa para trás a doce criança nascida no planeta de dois sóis.

Além da morte da senadora, as escolhas feitas por Anakin devido ao medo da perda trouxeram consequências para toda a Galáxia:

- Os bebês (Leia e Luke) são separados para que os Sith não os sintam e os encontrem;

- Obi-Wan se exila em Tatooine para cuidar de Luke sem que ele saiba;

- Quase todos os jedis da galáxia são mortos;

- A república é derrubada e o Império se instala.

E se Anakin, entretanto, tivesse escolhido aceitar que todos vamos sofrer perdas e que, na maioria das vezes, não podemos impedi-las? Padmé teria morrido no parto? O Império teria vencido? Assim como o Padawan, muitas vezes chegamos a agredir quem amamos por receio de sermos abandonados. Da mesma forma que Vader, podemos buscar cada vez mais por poder (seja ele representado por dinheiro, força física, beleza, conhecimento, posses...) em uma tentativa de ser “tudo o que alguém precisa” e, com isso, impedir que sejamos deixados.

Quem nunca ouviu uma história onde os pais não deixaram que um filho estudasse em outra cidade com a justificativa de que “é perigoso”, quando na verdade, a depender da dinâmica familiar, eles não desejam lidar com o afastamento do filho? Quantos de nós conhecemos mulheres que são impedidas de trabalhar por seus maridos, pois os mesmos têm medo de que elas “encontrem alguém melhor lá fora” e os deixem?

Será que nosso bem estar deve estar acima do de quem nos cerca? Nossa dificuldade de lidar com perdas são mais importantes do que a felicidade de quem (supostamente) amamos? Será que cedermos ao lado negro da Força é a resposta para lidarmos com o sofrimento?

Pense nisso!

E que a Força esteja com você!

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