• Mayara Labs;Miriam Furlan

Três anúncios para um crime (2017)



O filme se inicia após sete meses do estupro e assassinato de uma adolescente em uma pacata cidade dos EUA, quando sua mãe, Mildred, decide colocar três outdoors em uma das estradas da cidade como forma de pressionar as autoridades locais a solucionar o crime. Os eventos consequentes desse ato nos mostram claramente que responder o ódio com mais ódio não é a solução.

A todo momento nos é mostrado que o contexto de boa parte dos personagens é permeado de violência e é possível identificar racismo, relacionamentos abusivos, abuso de poder policial e violência doméstica/psicológica/física no enredo. Como não poderia ser diferente, a única forma que esses personagens sabem reagir é a partir da agressividade, seja em uma discussão entre pais e filhos, entre policiais e cidadãos comuns, até mesmo em uma visita ao dentista. A todo momento somos “testemunhas” de diálogos ofensivos, atitudes impulsivas e falta de análise dos fatos, como se fossem “normais” esse comportamentos.

Talvez, contraditoriamente em um meio violento, uma das poucas pessoas que demonstram certa capacidade de discernimento é o delegado Willoughby que tenta “domar” o policial Dixon durante boa parte do filme. Essa capacidade de análise dos fatos apresentada pelo delegado fica clara com suas cartas de suicídio deixadas à Mildred e à Dixon.

Três anúncios para um crime é um soco na boca do estômago, pois nos mostra o quão cruéis podemos nos tornar quando deixamos o ódio nos tomar e passamos a direcionar nossas frustrações, traumas e, até mesmo, desejos reprimidos a pessoas muitas vezes não envolvidas nos acontecimentos. Somos capazes de canalizar toda essa energia a qualquer um que “cruze nosso caminho” ou a alguém de quem não gostamos.

Nesse momento, você pode ter levantado a seguinte questão: mas basta escolher não ser violento, não é? Infelizmente, não. Desde pequenos aprendemos a seguir modelos comportamentais de quem nos cerca, como pais, professores, amigos. Se estivermos em um meio amoroso (que não exclui momentos de briga, deixemos claro), que nos ensine formas saudáveis de reação aos acontecimentos a nossa volta, na vida adulta a chance de nos tornarmos violentos é bem pequena. O contrário também é válido: um meio agressivo nos ensinará a reagir de forma agressiva a qualquer acontecimento. Isto pode ser visto em quase todas as relações apresentadas na produção.

Quando Mildred coloca os outdoors – um ato não violento, uma vez que ela apenas quer ser ouvida – são desencadeadas reações que não condizem com o problema em si, claramente devido a não capacidade de analisar a verdadeira causa da decisão da mãe da adolescente morta. A cidade se volta contra ela em defesa do delegado, esquecendo-se do crime não solucionado e, assim, instala-se o ódio. Como afirma o delegado morto em sua carta à Dixon, ninguém teve calma necessária a partir desse momento:

“Você precisa de calma para detectar algumas coisas (..). Basicamente é tudo o que precisa. Nem uma arma é necessária. E com certeza não se precisa de ódio. O ódio nunca resolveu nada. Mas a calma sim. E o discernimento também.”

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