• Mayara Labs;Miriam Furlan

The breadwinner (2017)



A animação tem como pano de fundo o Afeganistão sob controle do regime Talibã em 2001 e narra uma passagem da vida de Parvana, uma menina de 11 anos, quando seu pai é preso injustamente.

Era comum na família da menina contar histórias da cultura árabe como forma de ensinamento e, embora o Talibã fosse extremamente rígido em relação ao papel da mulher em sua sociedade (uso da burca, não poder andar desacompanhada do marido, pai ou irmão, não ser alfabetizada...), o pai de Parvana a ensinou a ler e sempre procurou, dentro de seus limites e do contexto, estimular o interesse pelo conhecimento na filha. Em uma das histórias, o pai conta que os árabes eram cientistas e considerados evoluídos tecnologicamente para a época das grandes navegações, mas que, pela força bruta, povos invasores foram impedindo que essa evolução continuasse e que, durante a história do oriente médio, os “rebeldes” (aqueles que não concordavam em ser governados pelos povos invasores) desapareciam. Com o passar do tempo, e a chegada do Talibã, as mulheres passaram a ser o alvo:

“Tudo muda, Parvana. A história nos mostra isso.”

Quando seu pai é preso injustamente, Parvana decide se disfarçar de menino para conseguir água e comprar comida para a família, uma vez que mulheres não podem andar desacompanhadas. A partir daí, a menina se insere em um mundo que não fazia ideia de como funcionaria: o mundo masculino. Ali pode se sentir “livre” sem ser mulher. É com essa “fantasia” que a menina ajuda a família e busca o pai, ainda preso. Quando os EUA invadem o Afeganistão, ela consegue, com a ajuda de um homem que conheceu no mercado onde o pai vendia artesanato, resgatar o pai, quase à beira da morte.

Parvana precisou se vestir como menino para conseguir sobreviver e ajudar a família a fazer o mesmo. Algo não muito distante da realidade de muitas pessoas ao nosso redor. Quem não conhece a mulher que finge ser feliz para manter o casamento por causa dos filhos? Ou o rapaz que sempre é submisso ao pai por medo do mesmo agredir sua mãe? Quantos de nós precisamos vestir máscaras todos os dias para conseguir ir ao trabalho, à escola ou até mesmo nos relacionarmos? Quantas vezes não temos a opção a não ser “abaixar a cabeça” e obedecer porque precisamos daquele trabalho? Quantas vezes não falamos o que pensamos porque temos medo de ser prejudicados?

Pode parecer um pouco injusto comparar a realidade de Parvana com a de nós no ocidente, mas tanto lá, quanto aqui, muitas vezes somos agredidos pelo meio por não termos opção. Sim, nem sempre podemos largar o emprego, o marido, responder as grosserias do pai ou sair na rua simplesmente para buscar água, como no caso de Parvana. Talvez por isso o pai da menina tenha terminado uma de suas histórias com a observação de que tudo muda. É na esperança de mudança que temos que nos ater e procurar, dentro de nossas possibilidades, assim como fez Parvana, manejar as situações ruins que por ventura venham a acontecer.

A história nos mostra que tudo muda, mas precisamos, enquanto isso, não perder a esperança.

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