• Mayara Labs;Miriam Furlan

Com amor, van Gogh (2017)



A lindíssima produção narra, através do olhar de Armand (filho do carteiro responsável pela correspondência entre os irmãos van Gogh), as semanas que antecederam o suicídio do pintor holandês Vincent van Gogh, aos 37 anos*. A narrativa se passa 1 ano após a morte do pintor, quando seu carteiro encontra uma carta de Vicent endereçada a seu irmão Theo que nunca pode ser entregue. Ele, então, incumbe seu filho, Armand da tarefa de entregar a correspondência. Sem endereço certo, Armand, a muito contragosto, refaz os passos do pintor antes de seu suicídio.

“Não vejo sentido em entregar a carta de um homem morto”

A animação passa, então, a nos apresentar duas jornadas: a de Armand – retratado inicialmente como um baderneiro que “vive metido em briga” – e a de Vincent – o genial pintor que nunca teve seu talento reconhecido em vida. Durante suas buscas, Armand desenvolve uma profunda empatia por Vincent, ressignificando a visão superficial e cruel que boa parte das pessoas que compartilhavam da vida de van Gogh tinham do mesmo, não querendo até mesmo acreditar na hipótese de suicídio. Foram os diversos relatos ouvidos durante sua viagem que fizeram com que ele tecesse uma nova interpretação sobre as excentricidades de Vincent que, como uma de suas “testemunhas” relata, era um homem a quem “(...) nenhum detalhe da vida era pequeno ou comum (...)” e que “(...) amava e apreciava tudo”... um homem que “(...) sentia muito e, por isso, desejava o impossível”.

Vincent nunca teve uma vida fácil. Dizia que era o filho mais velho, mas não o primeiro. Antes dele, houve um outro Vincent, um irmão natimorto do qual os pais nunca conseguiram elaborar o luto, chegando a ignorar o segundo filho. Nesse contexto de maus tratos, o pintor cresceu tentando preencher o vazio deixado pelo irmão natimorto, mas sem sucesso: a mãe continuava depressiva e o pai encarcerado em sua dor. Theo acreditava que a infelicidade do irmão havia começado em sua infância, quando ele tentou a todo custo se encaixar na família, mas sem sucesso. Claramente, o final dessa história não poderia ser outro para Vincent além de desenvolver uma grave doença mental.

Com o passar dos anos o único apoio recebido pelo futuro pintor era do irmão mais novo, Theo, que durante muito tempo o manteve inclusive financeiramente. Mas em meio as perseguições de colegas por ser “diferente” e da indiferença dos pais, Vincent foi se fechando cada vez mais, tendo, comportamentos hora eufóricos, hora depressivos, culminando no surto em que ele corta a própria orelha. Após esse fato, boa parte da cidade passou a perseguir Vincent de forma mais insistente, agravando ainda mais seu quadro.

Durante os contatos de Armand com as pessoas que passaram pela vida de Vincent em seus últimos anos, podemos perceber que elas divergiam em muitos momentos, demonstrando a complexidade da personalidade do pintor: em alguns momentos impulsivo e irritado, em outros, doce e delicado. Também fica explicito que muitos deles tiveram uma “parcela de culpa” nos eventos que culminaram em seu suicídio: o valentão que o perseguia mesmo depois de adulto, o médico que não sabia lidar com as próprias frustrações...

Nesse contexto, Vincent cresceu acreditando que era um fardo e que nunca seria o suficiente para a família, chegando a dizer, em seu leito de morte que “talvez seja o melhor para todos”, numa clara demonstração da culpa sentida por ele baseada na crença de que era um peso para todos. Vincent sabia que era incompreendido, mas parecia acreditar que a opinião que tinham a seu respeito não poderia mudar em vida:

“Quem sou eu aos olhos da maioria das pessoas? Um ninguém. Uma não-entidade, uma pessoa desagradável. Alguém que não tem e jamais terá qualquer posição na sociedade. Em suma, o mais baixo do baixo. Muito bem mesmo que isso seja absolutamente verdade, então um dia gostaria de mostrar, através da minha obra, o que este ninguém, esta não-entidade, tem em seu coração.”

Até hoje não se chegou a uma consonância sobre o diagnóstico de van Gogh, que perpassa por transtorno bipolar, esquizofrenia, epilepsia, sífilis, transtorno de personalidade borderline. Mas consenso que o contexto em que vivia o pintor contribuiu, e muito, para seu desequilíbrio emocional. O bullying sofrido durante toda a vida e o desprezo dos pais contribuíram para o desenvolvimento de uma personalidade frágil, que não permitia que Vicent tivesse interações sociais saudáveis.

*muitas personagens da animação fizeram parte da vida de Vincent e foram retratadas em suas obras

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