• Mayara Labs;Miriam Furlan

Viva – a vida é uma festa (2017)



A história se passa durante a semana do Dia dos Mortos*, onde as famílias preparam altares com oferendas e fotos de seus parentes já falecidos. Na cultura mexicana, considera-se esse feriado um dia festivo, pois, acredita-se que, nessa data, os mortos vêm visitar suas famílias.

A animação nos mostra toda dedicação da família de Miguel, um menino de 12 anos que sonha em ser músico, para o grande dia e o quanto ela foi afetada por um evento do passado envolvendo os tataravós do menino. Esse fato, ocorrido há quase 100 anos, definiu uma cultura nessa família e gerou alguns não ditos.

“Às vezes eu acho que eu sou amaldiçoado... por causa de uma coisa que aconteceu antes de eu nascer...”

Quando jovem, Imelda (tataravó de Miguel) viu seu marido partir com um amigo (Ernesto) em busca do sonho de tornar-se músico. Hector prometeu voltar, mas nunca o fez, deixando Imelda sozinha com a filha Inês. Vendo-se nessa situação, Imelda reuniu forças e passou a fazer sapatos para sobreviver. Sua resiliência tornou-se o negócio da família, onde todas as gerações passaram a trabalhar. Mas o abandono de Hector fez com que Imelda o excluísse de sua vida e, na tentativa de proteger a filha, proibisse que a música fizesse parte de sua família, assim como qualquer coisa que fizesse lembrar o marido, inclusive, fotos (o que foi passado às próximas gerações). Com isso, ninguém, além de Imelda e dos parentes vivos na época, conheceram o rosto de Hector. Infelizmente, ela passou a acreditar que a culpa de ter sido abandonada era da música que havia “tirado” seu marido e não das decisões do mesmo. Para algumas pessoas, é mais fácil crer que algo externo é o responsável por algo de ruim que tenha acontecido, afastando-se da necessidade de lidar com as emoções relacionadas ao evento em si. Se Imelda tivesse responsabilizado apenas Hector por seu abandono, teria que lidar com fato de que seu amado a teria abandonado com a filha por livre e espontânea vontade, o que teria sido muito mais angustiante. Culpar a música foi a forma que Imelda encontrou para passar pelo luto da perda do marido.

Miguel, contrariando a cultura familiar de tornar-se sapateiro, quer seguir seu sonho de ser músico e idolatra Ernesto de la Cruz, “o maior músico de todos os tempos”, chegando a criar a fantasia de que o músico é seu tataravô, pois não há fotos dele e sua história é parecida com a de Ernesto. Durante as celebrações do Dia dos Mortos, o menino decide participar de um show de calouros e, como sua avó quebra seu violão em um rompante de raiva, ele resolve emprestar o violão do “tataravô” de la Cruz que fica em seu mausoléu. Durante o ato, ele é magicamente levado para o mundo dos mortos.

“Do outro lado”, Miguel conhece vários parentes, incluindo mama Imelda, que se nega a dar sua benção para que ele volte ao mundo dos vivos a menos que ele aceite a condição de que nunca mais se envolverá com a música. Irritado, ele decide procurar outro parente para lhe dar a benção, no caso, de la Cruz. Durante sua busca, ele conhece Hector – um falecido que busca uma forma de não ser esquecido por sua filha – que explica que, quando a foto de um falecido não é colocada no altar do dia dos mortos, ele acaba sendo esquecido e, com o tempo, termina “morrendo” também no mundo dos mortos. Aqui podemos pensar em quanto dos nossos mortos são esquecidos porque decidimos focar na perda em si e não no que de bem eles fizeram em vida, como se a dor da perda fosse esquecida se não lembrássemos dela. Na animação, Hector nos explica que os mortos continuam “vivos” através das lembranças que seus parentes vivos têm deles, das fotos que são colocadas nos altares no Dia dos Mortos e das histórias sobre eles que são contadas. A foto colocada no altar é uma espécie de passaporte que permite que um falecido visite sua família no Dia dos Mortos. Quantas vezes, “enterramos” mais uma vez nossos entes queridos pelo medo da dor da lembrança? Quantas vezes, não permitimos que os mortos “visitem” o mundo dos vivos escondendo fotos e itens daqueles? Talvez, por isso, seja tão estranho a nossa cultura um dia de “celebração da morte” como o que acontece no México. Para nós, o dia de finados é um dia triste, pois focamos na morte. Os mexicanos, valorizam a vida.

Durante sua aventura, Miguel descobre que seu verdadeiro tataravô é Hector e que o mesmo foi assassinado por de la Cruz quando ele decidiu voltar para Imelda e Inês. A partir daí o garoto compreende de onde veio seu “algo diferente” e Imelda conhece a verdadeira história por trás do abandono do marido. Voltando ao mundo dos vivos, Miguel consegue fazer com que Inês se recorde do pai com a música feita para ela, evitando, assim, que ele desapareça do mundo dos mortos.

Na animação podemos ver claramente o quanto os não ditos familiares geram instabilidade emocional em seus integrantes e dão margem há muitas interpretações: a avó de Miguel briga com qualquer pessoa que seja envolvida com a música; o garoto não compreende por que não pode seguir seu sonho por algo que aconteceu há tanto tempo e se angustia; Inês é privada da lembrança do pai como forma de proteção; a música (algo tão presente na cultura mexicana) é proibida na família. A “história mal contada” do abandono de Imelda privou que todas as gerações seguintes desfrutassem do futuro que por ventura escolhessem (uma vez que todos eram “obrigados” a trabalhar na sapataria) e do contato com boa parte do mundo exterior.

A partir de toda essa intergeracionalidade e parafraseando Sartre e Karl Marx: fazemos nossa história sob as circunstancias transmitidas e sugeridas pelo passado, e então te pergunto - como você se tem feito a partir dessa herança? Que escolhas tem tomado? Assista o filme e venha refletir com a gente =D

*Você pode saber mais sobre as origens do Dia dos Mortos nesse link: http://www.editoracontexto.com.br/blog/os-mexicanos-dia-dos-mortos/

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