• Mayara Labs;Miriam Furlan

Onde está Segunda? (2017)



(Ou “Sobre a falácia da criação igual dos filhos”)

Em um futuro distópico, onde o controle de natalidade se tornou rigoroso devido a crise mundial de alimentos, consequência da superpopulação, cada casal pode ter apenas 1 filho. Caso tenha mais de um, ele é “recolhido” pelo governo e colocado em hibernação até que a condição mundial melhore.

Nesse contexto, Karen Settman engravida e decide continuar com a gravidez de 7 bebês, embora saiba que 6 seriam levadas pelo governo, mas acaba morrendo no parto. Seu pai, então, resolve criar todas as crianças escondendo-as do governo. Como estratégia, ele cria uma “personagem” chamada Karen (em homenagem à mãe das crianças) que seria “interpretada” por cada uma das meninas em um dia da semana. Sendo 7 os dias da semana, Terrence nomeia-as como segunda, terça e assim por diante. Seguindo um rigoroso cronograma, cada uma delas assumiu a identidade de Karen no mundo exterior no dia de seu nome.

Para seguir com seu plano, o avô faz com que elas, ao final do dia, compartilhem todas as informações do dia e reproduz em todas qualquer alteração física que ocorra em uma das irmãs, chegando ao absurdo de cortar um dos dedos de todas as outras irmãs depois que uma delas sofre um acidente. Elas também são obrigadas a usar perucas e mesma maquiagem para esconder qualquer tipo de diferença que possam ter. O avô acredita cegamente que seu plano dará certo, pois são 7 pessoas “iguais” sendo educadas da mesma forma. Fica claro, entretanto, que ao longo de seu desenvolvimento, cada uma delas desenvolveu características próprias e que nenhuma tem a personalidade igual à de outra.

É comum escutarmos no dia a dia, pais dizerem que não compreendem como podem ter filhos tão diferentes, uma vez que criaram todos da mesma forma. Assim como Terrence, eles acreditam que agiram da mesma maneira com todos os filhos. E assim como o avô, infelizmente, estão enganados.

Nossa personalidade não é estática. Ela está em constante movimento, moldando-se ao contexto em que vivemos. Claro, algumas características dificilmente mudarão, mas com a vivência e o amadurecimento, tendemos a enxergar e reagir de forma diferente ao nosso meio. E isso também acontece com a criação dos nossos filhos.

Se você que está lendo esse texto teve o primeiro filho ainda jovem, com pouca experiência de vida, sabe como foi difícil aprender a lidar com todas as demandas de um bebê e pode até mesmo pensar “nossa, se eu tivesse meu filho agora tudo seria mais fácil”. Sim, seria mais fácil, pois você tem mais experiência como ser humano, está mais maduro e possivelmente lida melhor com várias situações. Logo, a criação que daria a seu filho seria diferente. Concorda? Então por que insistimos em pensar que criamos nossos filhos da mesma forma, independente da diferença de idade entre eles? Entre um filho e outro, aumentamos nosso conhecimento, aprendemos a nos adaptar às circunstâncias e, algumas vezes, conseguimos enxergar onde erramos e acertamos na educação do filho mais velho.

Também é ilusório acreditar que, mesmo entre os gêmeos, nossos filhos reagirão da mesma forma em resposta aos nossos comportamentos. Sendo assim, precisamos nos adaptar e criar novas soluções para novos problemas decorrentes das respostas comportamentais dadas por cada um de nossos filhos. Assim como muitos de nós, Terrence, o avô das 7 gêmeas, acreditava que elas, embora dentro de casa pudessem ser elas mesmas, poderiam representar um mesmo “personagem” no mundo exterior, o que, claramente, foi impossível, uma vez que cada uma delas tinha os próprios desejos e angustias, algumas vezes não compartilhados com as demais.

Se nossa personalidade é fluida e cada um de nossos filhos tem características psíquicas diferentes, como seria possível uma criação ser igual à outra?

Pense nisso!

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